Luiz Carlos' posts with tag: contos
Conto 14
MESA RÚSTICA É OUTRA COISA!
Estávamos redecorando a casa. Dizem que é bom para mudar as energias no lar etc. Mas entenda: redecorar, nas nossas condições financeiras, é antes de tudo adaptar. Primeiro, uma explicação: minha mãe arrumou a casa à sua imagem, semelhança e falta de gosto, quando era apenas a residência de fim de semana, a casa de veraneio da família. Eu sempre quisera mudar algumas coisas, mas a casa era dela! Só que agora era diferente: eu morava ali. E Viviane também. Portanto, time to make changes! Tempo de fazer mudanças! Em primeiro lugar, aproximei os sofás e fiz um “éle”, com a mesa de centro mais próxima. Dava até para botar os pés sobre ela durante as transmissões de futebol! Ou novelas. Depois, espalhei as bugigangas de minha mãe pela casa (a maioria escondi no sótão) e tratei de botar meu aparador Ricardo Campos na sala, com o telefone, o sem-fio e os porta-retratos. Mudei o aparelho de som do lugar e preguei muitos pregos na parede, para pendurar os quadros do meu amigo Luiz Carlos de Carvalho — a maioria comprada quando eu tinha dinheiro suficiente para gastar até em arte. Os outros, ele me deu, depois que me tornei um duro. Amigo é para essas coisas. E eu os adorava. Nunca tinha ido a Nova Iorque (até mesmo preferia Paris), mas minhas paredes exibiam duas paisagens neo-impressionistas urbanas de Times Square, duas do SoHo, uma do Village e uma da estação de metrô de Queens. Viviane reclamava: — Uma casa no meio do mato, cheia de quadros urbanos... Não tem nada a ver! E eu explicava: — Por isso mesmo, tem a ver! Quando moramos na cidade, enchemos as paredes com paisagens campestres, árvores, lagos, patinhos, cavalos, choupanas... Aqui, quem quiser ver mato só precisa olhar pela janela! A paisagem urbana é o contraponto, entendeu? — perguntei, sem esperar que entendesse. Nessas horas, eu decidia e pronto! Que os historiadores me desmintam: foram vários séculos de machismo e eu não entregaria a rapadura assim, em dois anos! Portanto, minha sala ficou moderníssima! Inclusive, emocionou a mãe do artista (Dona Mercedes), na primeira vez em que nos visitou. — Você gosta mesmo do trabalho do meu filho! — exclamou ela, enquanto Viviane preparava um suflê de queijo, na cozinha, em sua homenagem. Bom, as paredes estavam resolvidas. Os quartos também: mudei uma cama para o sótão (que só servia como dormitório, por causa de seu pé-direito baixíssimo), botei a nossa cama de casal num quarto, entulhei os quadros horrorosos de minha mãe no seu, enchi a sua cômoda de retratos do meu filho para ela ficar contente (era o xodó da vovó!) e pronto! Agora, a varanda! Bom, esqueci alguns cacarecos. Uma tapeçaria exageradamente grande e colorida foi deslocada para o corredor. Um porta-chapéus que apodrecia sob uma cama no sótão mudou-se gloriosamente para o mesmo corredor de baixo, que ligava a sala e a cozinha aos quartos, “para as visitas pendurarem seus casacos e bolsas”. E uma mesinha bastante avariada — mas que me foi dada pela falecida avó materna quando me mudei pela primeira vez — foi salva do lixo ao ir enfeitar o banheiro maior, onde, finalmente, podia-se defecar fumando ou lendo revistas (bastava colocar o cinzeiro e os exemplares velhos sobre a dita mesinha)! Bem, a varanda... Nela, durante anos, reinava absoluta uma daquelas mesas brancas de madeira, tipo beira de piscina, onde meu pai fumava um cigarro atrás do outro e enchia a cara de samba-em-berlim ou uísque-com-guaraná. Tinha quatro cadeiras. E havia uma parede de pedras, sem qualquer adorno, onde se destacavam dois abajúres fixos. Mais adiante, uma rede que os cachorros adoravam sujar de lama e alguns vasos com pés de metal, que os mesmos cachorros adoravam tombar, derrubando toda a terra, para ver se descobriam tesouros de ossos, raízes apodrecidas, restos de grilos ou besouros, comida caída de alguma boca falante... Pois bem: deu a louca e mudei tudo! Na parede de pedra, pendurei um belíssimo espelho que minha outra avó deixou encostado no quartinho dos fundos. E também alguns quadrinhos primários, talhados por algum naïf, que ficavam péssimos na sala mas ótimos ali. Botei a tal mesa branca de madeira para a frente da varanda e resolvi fazer uma espécie de living de verão na parte mais larga. Tirei poeira de uma velha cadeira de balanço esquecida no sótão, tirei também de uma outra cadeira com encosto alto, peguei alguns tocos de madeira que Viviane catara no mato, transformando-os em mesinhas de canto para copos, cinzeiros etc., e montei um quadrado perfeito, completado pelo banco de madeira que, meses antes, comprei à prestação na lojinha de móveis mais próxima (acho que já falei disso antes). Faltava, porém, uma mesa de respeito, no centro, onde pudéssemos botar garrafas de uísque, latinhas de cerveja, tênis sujos em dias de chuva, pratinhos com tira-gostos, cinzeiros velhos, chaves de fendas, papel amassado, restos de chocolates, álbuns de fotografias, guarda-chuvas, o telefone-sem-fio e tudo o mais que se costuma largar sobre uma mesa de varanda. Mas, que mesa?!
excerto de: Contos da Pindaíba 2000/2003 Ney Reis
HISTÓRIA DE UM SONHO NA MADRUGADA DE DOMINGO, 5 DE AGOSTO DE 2007 Rua Dias da Cruz1, Méier, Rio de Janeiro, fim de tarde/início da noite2 de um dia qualquer
Eu estava no saguão de um prédio comercial de esquina, havia outras pessoas, desconhecidas, circulando pelo local. Não vi o local por completo, mas posso perfeitamente descrevê-lo: um lugar comum, sofás para espera, mesinha de centro, quadros de consultório médico pelas paredes, a luz nem muito forte nem muito fraca, um balcão de portaria, a parede de vidro voltada para a rua, como uma vitrine. O sonho já havia começado há algum tempo, mas me parece que tudo que ocorreu até ali fazia parte de outra história, os sonhos são assim, não há intervalos comerciais que separem um acontecimento do outro. Eu não lembro de nada que ocorrera, o fato é que eu já estava ali. Eu esperava a Rachel3 no saguão e estava com muito sono. Vestia uma roupa comum, como num dia de trabalho, e levava minha mochila. Como havia sofás por perto, deitei em um deles e fiquei alguns segundos enrolando a alça da mochila no braço para que ninguém mexesse nela caso eu cochilasse ou dormisse mais profundamente. O sono era grande. Ela não demorou muito a aparecer, então me levantei e fui pegar algo, não sei o quê, dei alguns passos em direção à saída e voltei. Foi quando percebi que sentado em um outro sofá estava o Edu4. Não sei por que ele estava ali. Somente naquele momento também percebeu minha presença. Assim que o viu, a Rachel caminhou em sua direção, e eles se cumprimentaram como se fossem velhos amigos5 que não se vêem a algum tempo. Depois, o Edu, rindo, falou que não havia percebido antes que era eu que estava deitado ali. Algumas pessoas, umas três ou quatro, desconhecidas, interagiram com a gente, rindo e falando. O porteiro do prédio, como se também conhecesse o Edu, falou, em tom alegre pela coincidência, que não sabia que nós nos conhecíamos, senão teria nos avisado da presença de um e de outro. Neste momento surgiu no local o Luiz Carlos6, porém, ao contrário dos demais, nada falou ou expressou por movimentos. Então, estávamos nós quatro juntos formando quase que um círculo: eu, Rachel, Edu e Luiz Carlos.7 Em um segundo, tudo muda, e o que parecia um acontecimento banal, semelhante até a uma cena de filme ou novela, se transforma no mundo maravilhoso e inexplicável do sonho. Um mundo em que tudo acontece e, mesmo que não tenhamos visto ou ouvido, nós podemos ter, durante o acontecimento, a percepção ou intuição de tudo que se passa. Primeiramente, a Rachel saiu do prédio e foi caminhando lentamente pela calçada, parecia que estava retardando o passo para que eu a alcançasse quando saísse. Quando fiz o movimento para começar a andar e, exatamente neste instante, o alarme do prédio começou a soar. Parecia um incêndio. Vi pedaços de vidro, estilhaços das janelas do prédio, caindo e batendo na calçada, e pensei rapidamente que deveria sair dali. Mas como iria me proteger do vidro? Vi o Luiz Carlos saindo agachado bem rente ao prédio, e decidi segui-lo. Mas ao sair, senti estilhaços batendo em minhas costas. Luiz andava muito devagar. Fiquei afobado e decidir correr para a rua8. Havia um local na calçada em que os estilhaços das janelas caíam como uma cascata. Meu pensamento foi de passar ali protegendo a cabeça. Sabia que iria me machucar, mas, desde que não caísse uma janela inteira, seriam apenas alguns cortes e arranhões, nada grave, pois o vidro não caía com força. Foi o que fiz. Protegi a cabeça e corri sem olhar em direção à rua. Como previ, não me machuquei. Minha intenção era me afastar completamente, e ir embora sem saber o que estava acontecendo. Não me interessava saber, só queria sair daquela confusão. Pensei que seria testemunha, então teria de ir à delegacia, prestar depoimento, enfim, essas responsabilidades, e quis fugir de toda essa chateação. Porém, ao chegar à rua, a confusão não cessou. Para todo lado que eu olhava, havia pessoas correndo desesperadas, chorando, algumas caídas pelo asfalto. Uma garrafa inteira de cerveja se espatifou ao meu lado, assim como pedaços já quebrados de outras garrafas. Olhei para o alto, era fim de tarde. Entendi que o problema não era no prédio em que eu estava, mas, incrivelmente, era uma chuva de vidro! Começou a bater vidro em mim, senti tudo perfeitamente durante o sonho, foi impressionante a realidade, mas não fazia ferimentos graves, pelo menos eu não os sentia, então decidi atravessar a Dias da Cruz, já que do outro lado da calçada havia uma marquise na qual eu poderia me proteger.9 Essa travessia pareceu durar longos minutos. Não corri em linha reta, pois havia muitas pessoas correndo sem direção e muito vidro caindo à minha frente e em mim, me fazendo desviar, instintivamente, do caminho reto. Mas, repito, o vidro batia em mim e não me cortava, eu apenas sentia as dores das pancadas. Além disso, durante a corrida eu senti pó de vidro na boca, e me preocupei muito em não engolir. O estranho (ou não, tratando-se de sonho) é que eu senti realmente o pó na boca, mas não sei como descrever. Deve parecer com a sensação de mastigar areia, embora eu nunca tenha feito isso. Cheguei embaixo da marquise. As pessoas, assim como eu, procuravam colar as costas nas paredes do prédio, das lojas, pois os estilhaços dos vidros ainda voavam em nós, porque batiam no chão com uma força incrível e se quebravam em vários cacos. De repente, algo como uma bola de fogo caiu do céu, instantânea como um raio, e acertou um rapaz que estava à minha direita, a poucos metros. Foi a primeira sensação de morte que tive no sonho. Desesperadas, as pessoas gritavam. Vi que não era seguro ficar ali. Tive a consciência de que era uma chuva de meteoros, o que explicava o vidro que caía do céu. Na hora, veio-me a explicação na mente de que os meteoros, primeiramente, acertaram os prédios, altos, fazendo voar o vidro de suas janelas. Corri para a esquerda, sempre me arrastando pela parede, embaixo da marquise. Escutei o som de aviões, que logo vi que eram caças. Entrei em um açougue10 e, estranhamente, o homem que lá trabalhava se comportava como se nada estivesse ocorrendo. Não sei por quê, a imagem do açougue ficou na minha mente. Era bem claro, amplo, limpíssimo, e o açougueiro também. Vi de relance as carnes penduradas naquele expositor dos açougues, mas, acho, não tinham nada de especial. Em frações de segundos o açougueiro sumiu. Foi minha chance. Entrei no açougue para me esconder dos estilhaços atrás do balcão. Não deu tempo, pois escutei um homem gritando “está vindo a nave deles!” e… Era noite. Escutei sons de explosões e vi dois caças da Força Aérea Brasileira sobrevoando o local. Estavam combatendo. De repente tudo silenciou e saí de debaixo da marquise do açougue. Olhei para o alto, agora tudo calmo e, em um ou dois segundos, vi passar sobre a rua, entre os prédios, uma nave branca, grande, mas não imensa. Na hora, deduzi o tamanho da nave: pelo tempo que demorou para passar cruzando a rua, entre prédios que estavam um de frente para o outro, a nave devia ter o tamanho de dois aviões comerciais enfileirados. Veja bem, pensei isso e cheguei a essa conclusão no próprio sonho, e não agora enquanto escrevo. Logo, tudo se explicou, estávamos sofrendo um ataque alienígena! Mas este ataque tinha um propósito. Assim que a nave branca passou, as pessoas que ainda se escondiam vieram para a rua. Chegou voando uma grande bola prateada, com colunas que iam em todas as direções, como um sol em miniatura. Abriu-se um painel, e mensagens em várias línguas surgiram. Eram frases com duas palavras que foram passando como num painel eletrônico nas diversas línguas, como se estivessem procurando a língua certa. Os alienígenas queriam se comunicar. Por fim, surgiu a frase em espanhol. Juro que, no momento, no sonho, pensei “como são burros! Assim como os americanos, devem pensar que falamos espanhol e que nossa capital é Buenos Aires!” Então surgiu a frase “Me ombre”11 em vermelho, com letras de fôrma estilo digital. Sei que não é esta a tradução, mas a mensagem foi entendida por todos: “Me mate”. Instantaneamente, veio diretamente em nossas mentes, como se fosse telepatia, a ordem para gritarmos “Me ombre”, ou seja, “Me mate”. Foi a segunda vez no sonho que tive a sensação de morte. Gritando isso, estaríamos aceitando e confirmando nosso destino. Mas ninguém gritou. Agora vem a parte mais incrível, pelo menos pra mim, do sonho. O painel, que antes tinha a forma retangular, ficou quadrado e maior, como um telão. Surgiram imagens de vários símbolos que não conheço e por fim a imagem de um homem, mas não um homem comum. Um homem com uma vestimenta específica. E, de repente, seu nome. Logo, a telepatia entrou em ação novamente, e recebemos a mensagem: “Queremos Roland de Gilead. Entreguem Roland de Gilead.” Depois disso, a cena foi cortada pela imagem de um livro de capa preta sendo folheado. Não no telão dos alienígenas, mas no próprio sonho. Um livro sendo folheado e que ocupava toda a minha visão. Finalizando e O que se passou depois que acordei Você conhece Roland Deschain, ou, como é conhecido, Roland de Gilead? Já ouviu falar nele? Eu o conheci há poucos meses. Trata-se de um personagem do escritor norte-americano Stephen King. Roland é o personagem principal da série A Torre Negra – considerada por muitos como a mais importante odisséia de fantasia pós-O Senhor dos Anéis –, uma série composta de sete livros (o primeiro lançado em 1982), cujo último volume foi lançado este ano pela editora Objetiva. Conheci Roland fazendo a revisão desse livro. Se vocês virem a página de créditos, meu nome está lá, na revisão. Enfim, nunca havia lido um livro de Stephen King, mas o conhecia e sabia que ele escreve livros de fantasia e/ou terror. Ao trabalhar no último livro da Torre Negra, fiquei sabendo do final da série muito antes dos milhares de fãs do escritor que colocaram o livro nas listas dos mais vendidos. Engraçado, né? Nunca tive pesadelos por causa de filmes de terror. Aliás, nem considero esse sonho um pesadelo. E meu primeiro sonho desse tipo foi com um personagem de um livro de fantasia. Alguém já sonhou com personagens de livros? Certamente sim, mas há de reconhecer que é, no mínimo, incomum. Quando acordei após ver o livro sendo folheado (e não havia mãos que o folheassem, as páginas passavam sozinhas, ou talvez pelo vento), fiquei naquele estado em que a gente não sabe muito bem se está acordado ou dormindo. É um meio-termo. A verdade é que eu estava gelado, com o coração na boca, seca, sentia os dedos das mãos e dos pés formigarem e um grande (grande mesmo!) frio na barriga. Instintivamente, meio dormindo, meio acordado, cheguei a uma interpretação do sonho. Os alienígenas queriam sim dominar o mundo, mas queriam primeiro eliminar Roland de Gilead, como se ele fosse o único ser capaz de salvar a Terra (leiam A Torre Negra e descubram qual o verdadeiro papel de Roland de Gilead em relação a Terra). Porém, cometeram o equívoco de achar que Roland é um ser real, e poderíamos usar essa falha deles para bolar um plano em que nós mesmos salvaríamos o planeta. E como explicar o fato de tomarem um personagem de um livro de ficção como real? Ora, não foram os livros que moveram a humanidade em toda a sua História? Torá, Alcorão, Bíblia. E são todos livros que contêm diversos pequenos livros em sua composição. A série A Torre Negra também é um conjunto de livros, que contam as vidas de diversos personagens. Os alienígenas apenas erraram de livro. Interpretaram Roland como nosso deus, deus vivo, em quem depositamos nossa última esperança, a quem recorremos quando não há saída. A Torá tem Israel, o Alcorão tem Maomé, de Meca, a Bíblia tem Jesus, de Nazaré. A Torre Negra tem Roland Deschain, de Gilead.12 Uma segunda interpretação surgiu rapidamente, ainda nesse estado dormindo/acordado. Na Torre Negra, assim como na vida real, o tempo, desde Einstein, é uma unidade, uma dimensão, manipulável13. Na série de Stephen King, os personagens transitam em diversos momentos do tempo. Os alienígenas do meu sonho poderiam, de certa forma, ser capazes de transitar pelo tempo e, em algum outro momento da História da humanidade, A Torre Negra poderia ter ganhado o status de “livro fundamental da humanidade” ou coisa parecida, justamente por prever essa capacidade de trânsito pelo tempo. Aqui entra outra informação: Stephen King, o escritor, também é um personagem na série, e com papel de destaque. Ora, se uma pessoa real pode transformar-se em personagem, por que não um personagem pode transformar-se em pessoa real? Certamente assim pensaram os alienígenas nesta segunda interpretação, e vieram ao nosso tempo buscar o único personagem/homem que poderia encará-los, Roland. Pensando nisso tudo, foi que despertei. Era madrugada ainda. Tentei não dar importância aos meus pensamentos e voltar a dormir, mas não consegui. Levantei, bebi água, fui ao banheiro e voltei pra cama. De olhos fechados, escutei uma música, uma corneta, e deduzi ser do quartel do Corpo de Bombeiros perto da minha casa. Acho que era o toque da alvorada, porque logo depois começou a clarear. Já havia perdido o sono completamente, essa história não saía da minha cabeça. Desisti de tentar dormir e vim para o PC. Era 6h30, agora são 10h30. Acho que mais tarde, depois de dormir um pouco pra recuperar o sono perdido, vou na livraria comprar o volume I da Torre Negra, pra saber como tudo começou. Rodrigo Raro Notas Não deixem de ler as notas, pois explicam algumas coisas no sonho. [1]A rua é a principal do bairro, com grande número de lojas e prédios comerciais e intensa movimentação de veículos e pessoas. 2 Como num sonho o tempo é relativo, posso afirmar que a história começou à noite, mas, em determinado momento que será apontado, era fim de tarde, e em outro momento, noite novamente. 3 Rachel Matta, colega de trabalho na Editora Record. O fato de eu a estar esperando é explicável na vida real. Como moramos próximo e pegamos o mesmo ônibus para irmos embora, muitas vezes eu a espero na portaria da editora, enquanto ela lida com os últimos detalhes do setor. 4 Eduardo, veterano na faculdade de Produção Cultural na UFF, uma turma à frente da minha. 5 Eles não se conhecem, pelo menos não que eu saiba. 6 Luís Carlos de Carvalho, artista plástico. Ele é diretor do Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, em Niterói. Ali no saguão, tive o sentimento de que ele exercia algum cargo parecido em relação ao prédio, talvez síndico, ou em relação a alguma instituição presente no prédio. 7 Que grupo estranho! O que pode significar? Algumas considerações interessantes sobre esse grupo: primeira, eu conheço todos, porém, eles não se conhecem; segunda, somos todos moradores de Niterói. O Luís mora em São Domingos, a Rachel em Icaraí e eu no Centro. Não sei onde o Edu mora, mas sei, pelo Orkut e por ele, que é em Niterói; terceira, eu os conheci de formas distintas. A Rachel no trabalho, o Edu na faculdade e o Luís no movimento cultural de Niterói do qual participo, o Arte Jovem Brasileira. Em eventos do AJB, o Edu e o Luís podem ter se visto; quarta, que eu me lembre, nunca algum deles apareceu em sonhos meus; quinta, o que eles estariam fazendo no Méier? Pra quem não sabe, vivi toda minha vida lá, mais precisamente no bairro do Cachambi, e a pouco mais de um ano vim pra Niterói. Mas, e eles? Nunca me falaram que sequer estiveram no Méier. Talvez, nem saibam onde fica… 8 A pista de asfalto, fora da calçada. 9 Andei muito pela Dias da Cruz em parte da minha infância, quando estudei no Colégio Metropolitano. A marquise que vi fica em frente ao local onde, naquele tempo, funcionou a Mesbla. Hoje, funciona ali um banco, se não me engano o Real. Mas no meu sonho, a loja estava fechada, como ficou alguns anos após a Mesbla falir. 10 Este açougue não existe. Na vida real, na direção que descrevo, há algumas lojas, duas ou três, e uma esquina. 11 Em espanhol, homem é “hombre”. Alguém me corrija se errei. 12 Alguém me corrija se também errei nessas considerações religiosas. 13 Falei besteira? Alguns links interessantes para essa história Méier: http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A9ier Rua Dias da Cruz: http://pt.wikipedia.org/wiki/Rua_Dias_da_Cruz Cachambi: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cachambi Blog do Luiz Carlos: http://carvalho.multiply.com/ Stephen King: http://pt.wikipedia.org/wiki/Stephen_King A Torre Negra: http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Torre_Negra Roland de Gilead: http://pt.wikipedia.org/wiki/Roland_de_Gilead * Não quero desanimá-los, mas cada volume da Torre Negra é um tijolão de 600, 700, 800 páginas…
 "VISITAS" NA MADRUGADA...
Ney Reis
Não conseguia dormir. Os pensamentos faziam fila e passavam ininterruptamente. Mas era aquela sensação que o impedia de relaxar: uma forte idéia de que parecia ser observado. Talvez fosse apenas um distúrbio obsessivo _ aquela doença sobre a qual lera poucos dias antes. A todo momento, se virava e encarava o clarão que vinha da porta que dava para o corredor, cuja luz estava acesa. Mas não via nada. Era apenas impressão. Tentava, então, repousar o corpo no colchão macio e sonhar. Minutos depois, porÃém, a sensação voltava...
De vez em quando, em plena luz do dia, tinha a impressão de ver sombras negras flutuando rapidamente a poucos centímetros do chão e, depois, sumindo. Podia ser no jardim, na sala, na varanda, nos fundos da casa, no sótão. Quem sabe, seriam apenas reações físicas de seus olhos cansados? Tentava acreditar nisso, mas tinha dúvidas.
Anos antes, quando era casado com sua segunda esposa, levantara no meio da madrugada e avistara um homem de pé, em frente à sua cama. Seu rosto se perdeu no tempo mas, naquele dia, era nítido. Teve um impulso, alimentado pelo susto imenso, de agredi-lo. E o fez. Seu punho atravessou a figura e fez tremer a porta do armário, machucando a mão esquerda levemente. Suava frio, ofegava e tinha o coração disparado. Sua mulher acordara com o barulho e não conseguiu entender o que se passava _ pois ele decidira não contar a verdade. Calou-se e, no dia seguinte, após consultar um amigo "médium", acendeu uma vela para aquela "alma atormentada", que nunca mais apareceu...
Anos depois, já em sua casa atual, com a terceira mulher, teve uma visão semelhante e o mesmo impulso agressivo. A mão varou o ar e acertou a parede com força. Apesar disso, não se machucou. No dia seguinte, a mesma vela foi acesa e o "espírito" desapareceu.
Mas a sensação voltara. Tinha noção, É claro, de que todas as vezes em que aquilo ocorrera estava sobrecarregado de problemas. Tinha muitas dúvidas, tarefas inacabadas, pressões variadas em família e no trabalho, infelicidade conjugal. Mas aquela sensação recorrente o incomodava porque não gostava dela. Sabia que tinha algum dom sobrenatural, mas não queria desenvolve-lo. Tinha medo até mesmo de "ver" pessoas muito queridas que haviam morrido, mesmo que fossem parentes muito próximos. Seu medo era físico: achava que o coração, maltratado por muitos desassossegos, não agüentasse.
Na última noite _ foi apenas ontem! _, teve a mesma sensação. Tentou não tirar o rosto do travesseiro, mas o impulso "obsessivo" foi mais forte e, por várias vezes, levantou e olhou para o clarão da porta. Em todas as vezes não viu nada, mas era como se alguém estivesse se escondendo dele, poucos centÃmetros além do campo de visão. Era alguém que queria testá-lo, ver atéonde suportaria, ou talvez fosse apenas um "espírito" encomendado por algum desafeto, querendo brincar com seus nervos. Era assim que pensava e, num acesso de raiva pelo absurdo da cena, decidiu enfrentar o que quer que fosse!
Levantou-se e não calçou ou os chinelos _ o que era raro. Caminhou com decisão pelo corredor frio e foi em direção à sala. Quase tudo estava às escuras, com exceção da lareira, onde os Últimos gravetos crepitavam em meio a muitas cinzas. E novamente teve a impressão de que as sombras negras dançavam ao redor delas... Mas nada do tal "homem" que aparecia...
Tentou olhar pelas janelas em busca de um vulto. Procurou no quarto do filho, na cozinha, na área de serviço. Foi até o jardim e tudo que pôde ver foi uma linda lua cheia no alto do céu, "escoltada" por uma enorme estrela avermelhada. Pensou ter visto um vulto sentado no galho mais baixo da á¡rvore favorita _ uma acácia que fazia sombra, de dia, no portão. Mas foi apenas impressão, pois insistiu no olhar e não viu mais nada.
Foi até a cozinha e serviu uma dose dupla de aguardente num copo grande. Bebeu tudo em silêncio, sentado na poltrona de palha trançada, bem ao lado da lareira. Voltou àcozinha e serviu outra dose, bebendo-a também em silêncio, como se esperasse avistar o "fantasma" a qualquer momento. Mas nada...
Na quinta dose, sentindo o corpo cansado mas a mente muito ativa, decidiu fazer algo radicalmente inexplicável. Foi até o banheiro, trancou-se e se masturbou, pensando em todas as mulheres interessantes que conhecia, com exceão de sua mulher. Teve um orgasmo r~´apido e não muito prazeroso. Mas relaxou o suficiente para sentir sono e se acomodou sozinho na cama de casal. Sua mulher dormia com o filho no quarto ao lado.
Não demorou muito para pegar no sono e sonhar com aquela figura diáfana, sedutora, pequena e linda. A mesma garota de sempre, cada vez mais atrevida e lânguida. Foram horas seguidas de sonho com ela, culminadas em outro orgasmo que lambuzou seu moleton e parte do cobertor.
Acordou com olheiras, como se tivesse dormido mal. A cabeça pesava, o corpo também. Mas o coração estava leve, apesar da tristeza que sentia... Teve vontade de chorar, mas segurou a emoção, amplificada pelo cansaço. Até que o filho, de apenas dois anos, o viu e correu para ele, sorrindo, com os olhos inchados de um sono profundo e tranquilo que são as crianças têm. Correu e o abraçou com força, batendo em suas costas como um velho camarada. Depois, beijou-o de maneira desajeitada, também como são as crianças sabem fazer. Foi aí que a luz o tomou e a calma voltou ao seu coração, além do calor que tomava seu corpo e o fazia sentir o "cheiro" da felicidade. Agora sim, tinha amanhecido. 

Desde que seu casamento esfriou, de um ano para cá, ele vem sonhando freqüentemente com aquela criatura. Trata-se de uma mulher nova, quase ninfeta, mas a palavra "criatura" define melhor sua aparição, pois raramente ele se lembra das formas de seu rosto. Só uma vez foi possÃvel reconhecê-la: parecia uma nova atriz de tevê, com olhos claros e boca bem desenhada. Não era nenhuma estrela e, por isso, não conseguia lembrar seu nome.
O importante era o sonho. Ela sempre lhe aparecia em trajes mÃnimos, ligeiramente transparentes, e ia logo se encostando, se esfregando languidamente... Tinha a pele muito macia e tocava em seu corpo com precisão. Queria abraçá-lo e beijá-lo. Mais que isso: poderia chegar à s vias de fato ali mesmo, fosse onde fosse. Era uma garota perfeita! Sua voz agradava e sua compleição era pequena, capaz de se "encaixar" perfeitamente em seu corpo quando o abraçava. Estava sempre feliz e sorridente. Parecia ter compaixão, também, porque o confortava, enquanto não parava de fazer movimentos provocantes, sempre trazendo-o sutilmente para perto de seu corpo. Tinha curvas e volumes, ah, sim, ela os tinha! Era gostoso abraçá-la, principalmente porque sua mulher não lhe fazia nada semelhante havia tempos. Desde que começaram a enfrentar dificuldades e até mesmo privação, a esposa parecia puni-lo com distância, indiferença, desdém. Só mudava de atitude quando alguma boa notÃcia chegava. Qualquer uma a alegrava, a mais fugaz que fosse: uma quantia modesta mas inesperada, uma possibilidade de trabalho, o pagamento do pequeno salário dele, enfim, notÃcias materiais. Nessas horas, ela parecia mesmo voltar aos tempos de carinho, companheirismo, excitação, mas isso logo se apagava em algum gesto ou palavra hostil. Não era, de jeito nenhum, a mesma mulher de antes.
O problema é que, no sonho, quando a doce e suave criatura o envolvia, ele sempre se continha. As situações eram mesmo embaraçosas, pois nunca estavam a sós: havia sempre uma ou mais pessoas por perto, a poucos passos de distância. Não bastava saber que era sonho (e ele sabia). Seus instintos não eram mais fortes que seu pudor. No fundo, tudo que queria era estar sozinho com aquela moça linda e deliciosa. Queria chegar ao clÃmax, ir até o fim! Mas não conseguia! E, diante de sua hesitação, a garota desaparecia!
Por três vezes, jurou que não se conteria. E por três vezes falhou. Em cada sonho, por sinal, havia uma mulher diferente, um rosto que não conseguia memorizar. Só daquela vez conseguiu, mas talvez fosse apenas semelhante ao da jovem atriz. Todas eram pequenas, suaves e carinhosas. Todas queriam lhe dar prazer e confortá-lo. Mas nunca conseguiam. E mais: quando tentava lembrar de seus rostos durante prolongados banhos mornos, na esperança de se excitar e concluir o que haviam “começado� no sonho, eram o corpo e o rosto de sua própria mulher que se definiam, insinuantes. E era com isso que chegava ao fim, saciado apenas em parte... 
 contos
(1) O HOMEM CALADO
Ney Reis
Até quando devemos insistir? — pensava ele com o peito comprimido no alumÃnio da janela. Até quando precisamos fazer papel de bobos diante do destino, para satisfazer aos outros? Era inevitável que pensasse nessas coisas, sentado naquele banco alto, inclinado sobre as grades, do outro lado da baÃa. Sua visão era melancólica: o prédio no Centro do Rio de Janeiro, onde havia trabalhado durante anos, agora estava semivazio, à espera do fechamento definitivo por parte da Justiça. Começava a escurecer e seu passado se despedia junto com o sol. Na verdade, o passado e o futuro lhe viravam as costas. E o presente era claustrofóbico. IncorrigÃvel e teimoso, o mundo à sua volta pressionava-o a tentar de novo. Mas o que? Como? Bem ali, diante de seus olhos, na imagem daquele prédio, eram exatamente o “novoâ€�, a “esperançaâ€� e o “futuroâ€� que se desmanchavam. Tudo se mostrava ilusório diante da concretude do seu silêncio e de seu desânimo. Mas poucos entendiam isso.
*
Todos os dias, ele acordava cedo. Não queria ser confundido com um vagabundo. Acordava cansado, com sono, após metade da madrugada lendo ou escrevendo coisas soltas, sem pretensão de virar “parte da obraâ€�. Escrevia para não emudecer de vez. E para sentir-se, de alguma forma, útil, criativo. Não via graça nas muitas formas de redenção que lhe sugeriam. Aqueles “futurosâ€� pareciam mais o passado revisitado que qualquer outra coisa... Durante poucas horas, não havia ninguém em casa. Estavam todos ocupados em perseguir “a realização pessoalâ€�. Todos acreditavam que construÃam “futurosâ€�, convictos de que ele seria sólido como as paredes daquele prédio quase deserto, “levitandoâ€� como uma alma penada sobre o mar. Ali, gerações de homens arrogantes, presunçosos e influentes exerceram um poder que parecia inesgotável. Eram os homens fortes da empresa igualmente forte, com ramificações em vários estados do paÃs e mesmo em cidades do exterior. Parecia impossÃvel que se arrastasse na paisagem agora, como um doente terminal que se recusa a deitar no leito de morte. Aquela imagem era a prova de que ele estava certo e muitos dos seus entes mais próximos, errados. Porém, de nada serviriam suas palavras desanimadas, experientes e realistas, pois todos encarariam sua dor como cinismo e covardia. Todos precisavam acreditar em alguma coisa, como, um dia, ele havia feito. Por sinal, mais de uma vez acreditou na profissão, no amor, na mudança. Mas o paÃs continuava basicamente o mesmo, o trabalho se perdeu e seu novo casamento se esvaÃa em problemas e cobranças variadas. Por isso, escolheu o silêncio. Até que todos voltassem a lhe dar os conselhos de praxe. Que ele ouvia com respeitosa complacência, vendo sua vida se esvaziar na esperança daquelas pessoas que lhe sugavam a vida, pensando salvá-la. Muitas vezes, ele se sentia como o personagem central do livro “Um Homem que Dormeâ€�, de Georges Perec. Mas não queria a inércia absoluta. De jeito nenhum! Só o silêncio — melancólico e tranqüilizador. Precisava escrever compulsivamente, durante alguns dias, para não enlouquecer, não capitular diante do “mundo realâ€�. Estava em um momento semelhante, embora escrever não fosse exatamente o impulso atual. Por isso, deixou-se levar pelo marasmo daquela hora linda — a mais bonita do dia, segundo ele mesmo gostava de dizer. E escureceu junto com a tarde, se pondo atrás da consciência, finalmente sonhando...
*
A moeda corrente era o nada. Ninguém tirava carteiras do bolso nos sonhos. Só garrafas mágicas e presentes. Todos se vestiam perfeitamente de acordo, esbanjando charme. Estavam animados. A janela solitária, ao lado da porta despretensiosa, não fazia justiça à casa. Mal se entrava, tudo crescia ao redor. Parecia um mundo elástico, feito de som perfeito e luz hipnótica — uma sensação devastadora de estar no centro do cosmo. Ali onde a vida pulsava com toda a sua força. Havia mulheres lindas e sujeitos esquisitos. Nas paredes, quadros coloridos indefinÃveis, com volume e textura, quase como seres colados aos tijolos. Parecia que a música saÃa dali! Coxas e peitos cruzavam a sala! Era um vaivém de formas irretocáveis, todas sugerindo: “Você não é homem de me tomar! Venha me tocar, se tiver coragem!â€� Tanta beleza a poucos centÃmetros, tanta bebida disponÃvel, tantos sorrisos, tudo o empolgava! Era literatura em movimento, cinema tocado, teatro com cheiro de confeitaria! Foram várias as vezes em que falou e tocou naquela mulher pequena, de pele macia. Uma doce ninfa provocante, com cabelos louros despenteados e uma roupa mÃnima que mal escondia suas curvas suaves, seu volumes generosos, o seduzia. Sempre se esquivando nas horas mais quentes, ela, porém, nunca o deixava. Chegaram a dançar uma canção lisérgica, numa batida que competia com a do coração e das ondas cerebrais. Era absinto respirável, com a sensação táctil de veludo morno... Várias horas foram passadas com aquelas criaturas sobrenaturais, sempre interrompidas por alguma atitude provocante da ninfa. Cada vez mais ele se excitava com aqueles pequenos toques, sutis apalpadelas e algumas esfregadinhas safadas, feitas “sem quererâ€�, no caminho de uma taça nova ou de algum pequeno pedaço de salgado temperado com afrodisÃacos desconhecidos. Até que chegou perto do clÃmax e não teve coragem de relaxar, deixando o fluxo da vida explodir dentro do sonho... Sentiu que precisava acordar.
*
Devia estar se aproximando das dez horas da noite quando o barulho da chave se “torcendoâ€� na porta o despertou do transe. Logo agora que ele havia resolvido, no último momento, não se segurar mais, deixando que a ninfa o excitasse até o final, junto com a batida da música e o balé frenético dos fachos de luz cortando aquela sala misteriosa. Aquilo sim era festa! Aquilo é que era vida! Só sensações e palavras, imagens e atitudes. Nenhum conceito enfadonho contaminava aquela situação e nenhum rosto “normalâ€� a esvaziava. Por isso era fictÃcio. Mas ele sonhou. Daquele dia em diante, talvez fosse boa idéia começar a acordar bem tarde e desdenhar todas as sugestões. Que fosse execrado pela vida real, que fosse o “vagabundoâ€�, que se danem todos! Era preciso que “seâ€� permitisse todas as alucinações, acreditando no bruxo que uma vez escreveu: “só o passado é nosso; só é nosso o que perdemosâ€�. E que também insinuou: a realidade poderia ser apenas um sonho, sonhado por um ser infinitamente maior que nós. “Touché, Borges!!!â€� É isso: a verdadeira vida pode estar dentro de nós mesmos, como a Matrix da ficção, “existindoâ€� numa enorme tela. Sonhada por outro sonho. 
 (1) O “CHUPA-RÁPIDO”... O artista se sentia relaxado pelo dever cumprido: havia terminado dois quadros encomendados por um marchand. Fazia muito tempo que não recebia incumbência tão importante. E estava em dia. Aliás, falando nisso, que dia! Final da tarde na pracinha do bairro de São Domingos, em Niterói, um dos lugares mais aprazíveis da cidade. O garçom do “Vestibular do Chopp” traz o terceiro gin-tônica. Não é qualquer bebida: gin-tônica é alucinógeno. Ainda mais numa tarde ensolarada, mas de temperatura amena. O bar tem som ambiente, o que reforça o “estado de graça”. É quando eu chego, cumprimento meu amigo e sento à sua mesa. Peço também um gin-tônica. Estava excitado pela mesma sensação, a do dever cumprido, pois acabara de entregar os originais de um livro a um velho amigo que se tornara editor. Queria beber em boa companhia, falar bobagens e olhar todas as mulheres belas que passassem pelas redondezas. Todas!!! É bom avisar: tratava-se apenas de uma questão estética, um prazer visual, pois sou casado e não tenho reclamações. Mas estava excitado e precisava canalizar minha energia de macho convicto de alguma forma — de preferência bebendo com meu amigo e falando sobre...mulheres! Ele também se encontrava com o mesmo espírito. Era divertido e não nos furtamos de falar e imaginar bobagens. De repente, passa um grupo de garotas que poderíamos classificar de “delícias vulgares”... Falavam alto, com um vocabulário chulo e nenhuma sofisticação nos gestos ou no andar. Eram mulheres da rua, mas com aquela graça democrática que só Deus sabe dar a qualquer uma, mesmo sem classe, berço, cultura ou sofisticação. Eram gatas vira-latas, em estado bruto. E riam ferozmente. Um sujeito menos atento não faria os comentários acima. Ele não perceberia a tinta barata nos seus cabelos, os tecidos vagabundos de suas (mínimas) roupas ou o andar afetado de quem pensa estar imitando peruas. Eram genuínas “vagabas”. Só que sensuais! Uma delas, de repente, se aproximou de meu amigo e mandou, sem preliminares: “Tio, me leva para a sua casa?!” Era uma frase explícita que provocaria uma atitude direta. Mas esse foi o problema: desconcertou a nós dois! Ela insistiu na frase e, surpresos, nos vimos fazendo galhofa e espantando as ovelhas negras desgarradas, se me permitem uma licença poética (sic.)... Ela foi se afastando com as amigas, mas não sem antes fazer um gesto obsceno que remetia a qualquer coisa parecida com “picolé”, “lambida”, delícia...claro, sexo oral!!! Movido pelo gin-tônica, meu amigo comentou: “Se a gente fosse um pouco mais maluco, levava essas vadias pra casa.” E eu retruquei: “Não valeria a pena. É um risco bobo, são mulheres à toa, podem te roubar, te ferrar, te passar uma doença”, argumentei, usando meu veio moralista. Mas logo me emendei. “É...mas que dá vontade, dá!!! Olha que coxas tem aquela do meio! Olha a bunda daquela menorzinha!”, comentei, sorrindo de excitação. O artista, meu amigo, ficou agitado. Percebi logo seu estado emocional e tratei de dissuadi-lo com humor. “Sem essa de comer essas vagabas. Acho que elas deveriam abrir um negócio, algo seguro e que desse grana”, iniciei, percebendo um olhar perplexo de meu amigo. “Hoje em dia, não é tudo rápido, tipo fast food, não estão todos sempre com pressa e estressados?”, continuei, aumentando a perplexidade do meu interlocutor. “Pois é, elas deveriam abrir um ‘chupa-rápido’, como são os lava-a-jato de carros, essas coisas... Me lembrei de uma música do Premê, “Lava-Rápido de Gente”, que é muito engraçada!”, detalhei, provocando um sorriso no amigo. As duas próximas horas foram passadas com euforia e muito gin-tônica, provocando alucinações em nós dois. A bela tarde contribuía para nossa alegria. E estudávamos os detalhes do ‘chupa-rápido’ em meio a gargalhadas. “Tem que ser como linha de montagem. O cara chega, bota o pau pra fora, leva uma ducha morna — porque fria broxa —, uma ensaboada e segue adiante, onde há um buraco e uma menina por trás. Ele mete o pau lá dentro e ela chupa até ele gozar. Rápido e simples!!!”, expliquei eu, com ironia incontida. “É! E elas cobram cinco reais! Isso! Cinco pratas a chupada!!!”, completou meu amigo. Ficamos ali, bêbados e bem humorados, até o anoitecer, detalhando em meio a sonoras gargalhadas nossa invenção erótica, o “chupa-rápido”. Claro que muita gente ouviu, inclusive as meninas, que haviam voltado ao bar para tentar aliciar outros cidadãos aparentemente solitários. Eram nove da noite quando nos dirigimos, cambaleando, à casa do artista, onde eu dormiria aquela noite e onde sua esposa nos esperava com um ligeiro ar de reprovação e uma sopa de legumes sensacional! Tudo se acalmou e tivemos uma noite divertida, com direito a um bom charuto, um bom Cd de jazz e mais algumas doses, desta vez de vinho. Acordei com uma ressaca branda, me vesti, tomei café com meu amigo, vesti a mesma roupa (suada) do dia anterior, “calcei” os óculos escuros e me dirigi ao ponto de ônibus. Perto dali, em frente ao sobrado onde morava a maioria das “vagabas”, percebi uma fila esquisita, que andava razoavelmente rápido... Em tempo: Ney Reis é escritor, poeta, jornalista e parceiro no NIGHTERÓI _ O Herói da Noite de Niterói 
| |