Luiz Carlos' posts with tag: andanças literárias

CHORINHO PARA A AMIGA
Se fosses louca por mim, ah eu dava pantana, eu corria na praça, eu
te chamava para ver o afogado. Se fosses louca por mim, eu nem sei, eu
subia na pedra mais alta, altivo e parado, vendo o mundo pousado a meus
pés. Oh, por que não me dizes, morena, que és louca varrida por mim? Eu
te conto um segredo, te levo à boate, eu te dou vodca pra você beber!
Teu amor é tão grande, parece um lugar, mas lhe falta a loucura do meu.
Olhos doces, com esse olhar de você, mas por que tão distante de mim?
Lindos braços e um colo macio, mas por que tão ausentes dos meus? Ah,
se fosses louca por mim, eu comprava pipoca, saía correndo, de repente
me punha a cantar. Dançaria convosco, senhora, um bailado nervoso e
sutil. Se fosses louca por mim, eu me batia em duelo sorrindo, caía a
fundo num golpe mortal. Estudava contigo o mistério dos astros, a
geometria dos pássaros, declamando poemas assim: _ Se eu morresse amanhã... Se fosses louca por mim... Se
você fosse louca por mim, ô maninha, a gente ia ao mercado, ao nascer
da manhã, ia ver o avião levantar. Tanta coisa eu fazia, ó delícia, se
fosses louca por mim! Olha aqui, por exemplo, eu pegava e comprava um
lindo pegnoir pra você. Te tirava da fila, te abrigava em
chinchila, dava até um gasô pra você. Diz por que, meu anjinho, por
que, tu não és louca-louca por mim? Ai, meu Deus, como é triste viver
nesta dura incerteza cruel! Perco a fome, não vou ao cinema, só de
achar que não é louca por mim. (E no entanto direi num aparte que até
gostas bastante de mim...) Mas não sei, eu queria sentir teu olhar
fulgurar contra o meu. Mas eu não sei, eu queri te ver uma escrava
morena de mim. Vmos ser, meu amor, vamos ser um do outro de um modo
total? Vamos nós, meu carinho, viver num barraco, e um luar, um
coqueiro e um violão. Vamos brincar no Carnaval, heim, neguinha, vamos
andar atrás do batalhão? Vamos, amor, fazer miséria, espetar uma conta
no bar? Você quer que eu provoque uma briga pra você torcer muito por
mim? Vamos subir no elevador, heim, doçura, nós dois juntos subindo,
que bom! Vamos entrar numa casa de pasto, beber pinga e cerveja e
xingar? Vamos, neguinha, vamos na praia passear? Vamos ver o dirigível,
que é o assombro nacional? Vamos, maninha, vamos, na rua do Tampico,
onde o pai matou a filha, ô maninha, com a tampa do maçarico? Vamos
maninha, vamos morar em Jurujuba, andar de barco a vela, ô maninha,
comer camarão graúdo? Vem cá, meu bem, vem cá, meu bem, vem cá, vem cá,
se não vens bem depressinha, meu bem, vou contar para o seu pai. Ah,
minha flor, que linda, a embreaguez do amor, dá um frio pela espinha,
prenda minha, e em seguida dá calor. És tão linda, menina, se te
chamasses Marina, eu te levava no banho de mar. És tão doce, beleza, se
te chamasses Teresa, eu teria certeza, meu bem. Mas não tenho certeza
de nada, ó desgraça, ó ruina, ó Tupá! Tu sabias que em ti tem tahiti,
linda ilha do amor e do adeus? Tem mandinga, tem mascate, pão-de-açúcar
com café, tem chimborazo, kantchaka, tabor, pocatepel? Tem juras, tem
jetaturas e até danúbios azuis, tem igapós, jamundás, içás, tapajós,
purús! _ tens, tens, tens, ah se tens! Tens, Tens, Tens,, ah se Tens!
Meu amor, meu amor, meu amor, que carinho tão bom por você, quantos
beijinhos alados fugindo, quanto sangue no meu coração! Ah, se fosses
louca por mim, eu me estirava na areia, ficava mirandoas estrelas. Se
fosses louca por mim, eu saía correndo de súbito, entre o pasmo da
turba inconsúbil. Eu dizia: Ai de mim! Eu dizia: Woe is me! Eu dizia: helàs! Pra
você... Tanta coisa eu diria, que não há poesia de longe capaz de
exprimir. Eu inventava linguagem, só falando bobagem, só fazia bobagem,
meu amor. Ó fatal pentagrama, ó lomas valentinas, ó tetrarca, ó
sevícia, ó letargo! Mas não há nada a fazer, meu destino é sofrer: e
seria tão bom não sofrer. Porque toda a alegria tua e minha seria, se
você fosse louca por mim. Mas você não é louca por mim... Mas você não
é louca por mim... Mas você não é louca por mim...
julho de 1944
Vinicius de Moraes
imagem: crazy baby, Bob Coulter.


Com a palavra,
Niterói!
A cidade promove o seu
festival literário nos dias 29 e 30 de setembro e 1 e 2 de outubro, realizando a
primeira edição do Encontros com a Palavra. Durante o evento,
livrarias, bibliotecas, sebos, salas de leitura e outros espaços culturais de
Niterói promovem rodas de leitura, encontros com autores, debates, oficinas de
criação, trocas de livros, lançamentos de novos títulos e venda de livros a
preços promocionais, estimulando o encontro da população com o universo dos
contos, da prosa e da poesia. As atividades foram planejadas de forma a
articular esse entrosamento, destacando Niterói como um espaço privilegiado para
a palavra, o debate e o pensamento.
Baseado no conceito do
arranjo criativo do livro e da palavra, o evento prima em oferecer uma
programação variada, que procura atender a todo tipo de público: vai desde a
literatura infantil e a contação de histórias, até psicodramas e oficina de
haicais. Tudo isto envolvendo escritores, declamadores e poetas das mais
variadas idades e estilos, numa saudável “ocupação” de espaços, como, por
exemplo, as livrarias Ideal, Livro e Café, Haicais, Otelo, Só Letrando, Nobel e
Romanceiro, além do Centro Universitário Plínio Leite, EdUFF, Solar do Jambeiro,
Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, Colégio PLUZ, Espaço de Cultura A Casa,
Museu de Arte Contemporânea, Museu Antonio Parreiras, Centro de Artes UFF, Salas
de Leitura da Ilha da Conceição e do Barreto, e as Bibliotecas Cora Coralina, do
Sesc/Niterói, Estadual de Niterói, e a Estadual Anísio Teixeira.
O Encontros com a
Palavra é uma
realização da Universidade Federal Fluminense (UFF) – através da EdUFF e do
NEICT, da Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação (PROPP) – e da Prefeitura de
Niterói – através da Secretaria Municipal de Cultura, da Fundação de Arte de
Niterói, da Secretaria Municipal de Educação e da Secretaria de Desenvolvimento,
Ciência e Tecnologia, com o apoio da Neltur.

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